Se o Strauss Khan tivesse tentado violar uma empregada de hotel portuguesa. A empregada dificilmente faria queixa, com medo de represálias, designadamente de ser despedida.
Se a empregada fosse destemida, estivesse farta do emprego e fizesse queixa na polícia, o mais provável é que o polícia lhe dissesse para ter juízo e não se meter com trutas e ela desistia da queixa.
Se o polícia fosse chanfrado e/ou completamente inexperiente e desse seguimento à queixa, o mais provável é que Strauss Khan já estivesse a meio caminho de Paris quando a polícia chegasse ao aeroporto para o interpelar.
Se, por um bambúrrio de sorte, a polícia o conseguisse prender antes de ele sair do país, o mais provável seria ele ser ouvido por um magistrado que lhe fixava termo de identidade e residência, sendo que ele, na primeira oportunidade, punha-se a milhas porque tem mais que fazer do que aturar juízes atacados por excessos de zelo.
Se, por alguma razão inexplicável, o velho Khan ficasse em prisão preventiva:
1. No dia seguinte o Público traria um artigo do Dr. Mário Soares verberando a sede de protagonismo de alguns senhores magistrados que não hesitam perante nada para dar nas vistas.
2. Marinho Pinto desdobrar-se-ia perante diversas estações de televisão clamando que os juízes declararam guerra aos políticos e agora já prendem quem nos dá o pãozinho com manteiga, in casu, qualquer coisa como 78 mil milhões de euros que o maluco do juiz está a pôr em perigo; é pior do que nos tempos da PIDE.
3. O ministro da justiça diria que não compreende como é que um homem acima de qualquer suspeita é preso por um juiz português apenas com base num depoimento de uma pessoa, mas que irá pedir ao Conselho Superior da Magistratura para instaurar um inquérito no sentido de se apurarem responsabilidades, designadamente disciplinares.
4. Os chefes dos grupos parlamentares do PS e PSD dariam conferências de imprensa em que a nota dominante seria a de que é muito complicado viver num país em que os senhores juízes pensam que são governo e parlamento, não sabendo fazer a distinção que se impõe na óptica da separação dos poderes (o CDS, o BE e o PCP não diriam nada, alegando que há que respeitar o segredo de justiça, mas nas entrelinhas e em "off" deixariam escapar que é incrível o estado de completa roda livre a que a magistratura chegou).
5. As várias Tvs fariam alguns inquéritos de rua em que alguns populares apareceriam dizendo que a “estúpida da preta” (não esquecer que a empregada vítima de tentativa de violação é negra) está mas é a ver se saca "algum" ao Strauss Khan, que toda a gente sabe que é milionário.
6. A presidência do conselho de ministros faria sair uma nota oficiosa indicando que mais uma vez se prova que se a oposição não tivesse irresponsavelmente inviabilizado o PEC IV, a reorganização judiciária já estaria em marcha, impossibilitando os protagonismos dos senhores juízes demasiado cheios de si próprios.
Azar dos azares: Strauss Khan não tentou violar nenhuma negra em Lisboa – fê-lo em Nova Iorque.
Por isso ficou em prisão preventiva, tendo a juiz recusado a sua oferta de prestação de caução no valor de 1 milhão de dólares.
Moral da história: em países em que a justiça é mesmo a sério, convém não pisar o risco; nos outros, é o que se quiser, à fartazana.
Pena que se tenha chegado tão tarde a esta conclusão, mas a geração dos que passaram "privações", quis dar aos seus filhos aquilo que não teve e que pensava ser o "melhor" para eles.
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego,... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música, bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquer coisa phones ou ypads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura, capacidade e competência, solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim.
O deputado do PS Ricardo Gonçalves gostava de ter a cantina da AR aberta ao jantar. Isto porque 3700€/mês que aufere "não dão para tudo". Fiquei com um "aperto no coração" ao ler isto.
Tiago Mesquita (www.expresso.pt) 9:00 Terça feira, 5 de Outubro de 2010
Pensava que nada me podia surpreender na política, mas eis que um deputado me acorda para a triste realidade: Portugal. O absurdo é o limite. O horizonte da estupidez ganha novos desígnios e contornos todo o santo dia. Ao deputado Ricardo Rodrigues dos gravadores junta-se agora o deputado Ricardo Gonçalves das refeições. Se o primeiro meteu gravadores no bolso. Este afirma que o que lhe põem no bolso não chega para tudo, mesmo que seja um valor a rondar os 3700€/ mês. Uma miséria. "Se abrissem a cantina da Assembleia da República à noite, eu ia lá jantar. Eu e muitos outros deputados da província. Quase não temos dinheiro para comer" Correio da Manhã (vou fazer uma pausa para ir buscar uns kleenex...)
O corte de 5% nos salários irá obrigá-lo, como "deputado da província", a apertar o cinto e consequentemente o estômago, levando-o a sugerir com ironia mas com seriedade (!?) a abertura da cantina da AR para poder jantar. Uma espécie de Sopa dos Pobres mas sem pobres e sem vergonha. Só com políticos, descaramento e sopa. "Tenho 60 euros de ajudas de custos por dia. Temos de pagar viagens, alojamento e comer fora. Acha que dá para tudo? Não dá" Valerá a pena acrescentar alguma coisa? Não me parece. Só dizer que as almôndegas que comi ao jantar não se vão aguentar no estômago durante muito tempo depois de ter feito copy/paste desta declaração Mas continuando a dar voz ao Sr. Deputado: "Estamos todos a apertar o cinto, e os deputados são de longe os mais atingidos na carteira". Pois é, coitadinhos, andam todos a pão e água. Alguns são meninos para largar os bifes do Gambrinus. Bem sabemos que os grandes sacrificados do novo pacote de austeridade do Governo vão ser os senhores deputados. Ninguém tinha dúvidas quanto a isto. E ajuda a explicar o "aperto de coração" que o Primeiro-Ministro sentiu ao ter de tomar estas "medidas duras".
Sabia perfeitamente que ao fazê-lo estava a alterar os hábitos alimentares do Sr. Deputado Ricardo Gonçalves, o que é lamentável. Que tal um regresso à província com o ordenado mínimo e um pacote senhas do Macdonalds? Ser deputado não é o serviço militar obrigatório. Pela parte que me toca de cidadão preocupado está dispensado. Não o quero ver passar necessidades. Há quem sobreviva com pensões de valor equivalente a 4 dias de ajudas de custo do senhor deputado. Quem ganha o ordenado mínimo está habituado a privações, paciência. Agora com 3700€ por mês e 60€/dia de ajudas compreendo que seja mais difícil saber onde cortar. Podíamos começar por cortar na pouca-vergonha. Mas isso seria pedir demais.
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Escrito por Maria Raquel Freire |
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01 de Março de 2009
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Numa mistura de políticas mais e menos assertivas, a Rússia não está disponível para ceder numa área que considera fundamental aos seus interesses. A Ásia Central está bem no centro da política externa russa, e diferentemente do início dos anos 1990, a Rússia não prescindirá da sua influência e poder na área.
Introdução: a Rússia na Ásia Central
A Ásia Central, formada por cinco repúblicas ex-soviéticas – Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão – é uma região intra-continental exposta a diferentes influências com impacto nas suas políticas de desenvolvimento, nas suas opções de governação e nos seus alinhamentos securitários e estratégicos. Os estilos de governação centralizada estão bem presentes nestas sociedades, e o processo de transição pós-soviético tem revelado o peso de um passado complexo. Neste contexto de muitas diferenças e inúmeras incertezas, este artigo analisa as políticas russas para a Ásia Central, demonstrando a crescente centralidade do ‘Eurasianismo’ nas formulações de Moscovo.
O envolvimento russo na Ásia Central tornou-se visível após 1992, forçado pela guerra civil no Tajiquistão. Mas será quando Primakov, conhecido como o ‘Eurasianista’, chega ao ministério dos negócios estrangeiros em 1996, que o interesse pela área é verdadeiramente renovado. E, no ano seguinte, face a uma presença maior dos Estados Unidos na região, incluindo uma base militar no Cazaquistão e a organização de exercícios militares conjuntos com forças cazaques, quirguizes e uzbeques, a Rússia reequaciona a necessidade de uma presença mais substantiva. Apesar dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 e dos desenvolvimentos subsequentes terem permitido o apoio imediato russo à luta global contra o terrorismo, consentindo no estacionamento de tropas norte-americanas no Quirguistão e Uzbequistão, por forma a sustentar a intervenção no Afeganistão, cedo a leitura russa desta presença alargada se torna densa.
De acordo com vários oficiais russos, em finais de 2003 a cooperação na área da segurança na região, com uma forte presença militar russa, era já clara. Esta apontava essencialmente para acções conjuntas a nível fronteiriço como forma de resposta ao aumento da criminalidade transnacional, cooperação com os serviços de segurança destas repúblicas na luta contra o terrorismo, tráficos ilícitos, crime organizado e imigração ilegal.2 O visível aumento da presença russa demonstra um esforço duplo de contenção de influências externas, e de promoção das políticas e interesses russos na área. O ‘Eurasianismo’ ou ‘Doutrina Monroeski’3 demonstra bem esta alteração na intensidade do envolvimento russo na Ásia Central, e a definição desta como interesse prioritário na agenda de política externa.4
Contudo, é interessante notar que paralelamente a uma política externa crescentemente assertiva, na Ásia Central a Rússia prossegue também uma abordagem mais soft, essencialmente através de programas de desenvolvimento e actividades culturais inter-regionais. E, de facto, aquando da apresentação do novo documento de política externa na primavera de 2008, o presidente russo Dmitry Medvedev referiu a necessidade de reduzir o ‘factor poder’, indirectamente apresentando esta opção menos assertiva. Esta parece ser o reflexo de um novo entendimento em Moscovo quanto à melhor forma de aumentar o seu poder e influência na região (note-se tratar-se de um contexto não-violento, contrariamente a outras áreas da Comunidade de Estados Independentes, como o vizinho Cáucaso do Sul). Neste mesmo alinhamento, é visível o maior peso do factor económico, do que manipulação política ou pressão militar, conferindo um elemento de novidade à política externa russa para a região. Aliada a este posicionamento, a existência de assimetrias energéticas parece convergir favoravelmente com as políticas de Moscovo, embora com limites, em particular face aos níveis distintos de relacionamento que a Rússia mantém com cada uma destas repúblicas. De facto, a estratégia russa tem-se revelado muitas vezes desarticulada, demonstrando dificuldades em agregar um conjunto de estados tão heterogéneos numa mesma política.
A Rússia tem bases militares no Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, e assinou um tratado de defesa bilateral com o Cazaquistão. A luta contra o terrorismo tem sido impulsionadora deste maior envolvimento russo e tem permitido um papel mais proactivo de Moscovo na área, em particular após os ataques terroristas operados pelo Movimento Islâmico do Uzbequistão no Quirguistão (1999 e 2000) e Uzbequistão (2000). Neste contexto, o Afeganistão assume um papel central, com a gestão de controlos fronteiriços a tornar-se prioritária. Por outro lado, este poderá ser um factor de cooperação com os Estados Unidos, num contexto pós-eleitoral com a vitória de Barack Obama nas presidenciais de Novembro de 2008, a ditar novas expectativas. A Rússia parece preparada para reenquadrar as suas relações com Washington, em particular no que concerne a questão afegã e as ameaças à segurança resultantes da crescente instabilidade no país. De facto, Medvedev tem pressionado para um maior envolvimento regional nos problemas afegãos, não apenas com a colaboração das repúblicas da Ásia Central e outros países limítrofes, como o Paquistão, mas também envolvendo a Organização de Cooperação de Xangai. Esta estratégia oferece à Rússia uma base mais sólida para o seu envolvimento, fortalece a sua posição, e serve como contrapeso (não necessariamente de forma hostil) aos esforços norte-americanos no Afeganistão.
Dinâmicas regionais e a abordagem russa
A ‘Revolução das Tulipas’ no Quirguistão (Março de 2005), que forçou o antigo presidente Askar Akaev a exilar-se, e trouxe ao poder o líder da revolução, Kurmanbek Bakiev, mais tarde eleito presidente, foi lida com preocupação em Moscovo e nas outras capitais da Ásia Central. Genericamente, a alteração de poder foi interpretada como resultante do apoio ocidental e como sinal de alarme quanto ao possível alastramento de instabilidade às outras repúblicas. Contudo, e apesar da mudança na liderança, a mudança política formal não correspondeu a uma alteração ideológica, e uma política de aproximação à Rússia tem sido desenvolvida pelas autoridades em Bishkek. A primeira base militar russa após a queda da União Soviética foi estabelecida em território Quirguiz, em Outubro de 2003 (base de Kant), e actualmente a Rússia está a negociar acesso à base de Osh, bem como cooperação relativa ao desenvolvimento de tecnologia militar, o que coloca os temas de segurança na agenda política dos dois países.
Quanto ao Cazaquistão, tem sido o principal parceiro russo na área. Como maior produtor de petróleo na região (1.3 milhões de barris por dia), um país rico e influente, e partilhando com a Rússia uma longa fronteira, é para Moscovo um actor chave na Ásia Central. Contudo, esta proximidade não tem sido suficiente para evitar acções não coincidentes com os interesses russos, como a assinatura de contratos petrolíferos com a China, por exemplo, que já se tornou a parceira comercial número um de Astana. Simultaneamente, as autoridades temem o poder crescente da China na Ásia, valorizando a relação cooperativa que mantêm com Moscovo.
O Turquemenistão aposta no seu potencial energético, usando-o como forma de pressão, como por exemplo em 2004 quando suspendeu as suas exportações de gás natural para a Rússia. O antigo presidente Niyazov reconhecia a relevância de manutenção de uma relação amigável com a Rússia, tendo convidado companhias russas a investir no país. O actual presidente, Gurbanguly Berdymukhammedov, tem procurado inverter a política introspectiva que tem sido característica do período pós-soviético, para um novo modelo de governação mais aberto à cooperação regional (por exemplo, com o Azerbeijão) e a iniciativas internacionais (envolvendo os Estados Unidos e a União Europeia). Este tem sido, contudo, um processo limitado por um estilo de governação autocrático e centralizado que se mantém fortemente enraizado.
Quanto ao Tajiquistão, e desde a guerra civil no início dos anos 1990, o país tem-se mantido extremamente dependente da Rússia. De facto, e no contexto da luta contra o terrorismo, Moscovo obteve assentimento quanto à reformulação da 201ª divisão motorizada das suas antigas funções de protecção fronteiriça e manutenção da paz, para uma base militar permanente. O Tajiquistão é não só dependente da Rússia, como subserviente à sua influência, notória na definição das suas políticas a nível interno e externo.
O Uzbequistão tem sido um parceiro próximo/distante da Rússia, jogando com os seus próprios interesses e a intersecção de influências externas na área. Após o 11 de Setembro, Karimov assinou uma parceria estratégica com os Estados Unidos, assente na luta contra o terrorismo. Contudo, os acontecimentos em Andijon em 2005, que levaram a acções de repressão severa sobre os manifestantes, suscitaram fortes críticas de Washington, arrefecendo a relação. O contexto revelou-se propício e a Rússia não perdeu a oportunidade, primeiro através da Organização de Cooperação de Xangai, e depois bilateralmente, de modo a trazer o Uzbequistão de novo para a sua órbita. Em finais de 2005, o governo Uzbeque anunciava que as tropas norte-americanas tinham seis meses para abandonarem o país. Paralelamente a esta inversão na parceria com os Estados Unidos, o Uzbequistão assinou vários acordos com a Rússia, relacionados com o desenvolvimento da indústria de defesa, e claramente aumentando a influência russa sobre as políticas militares de Tashkent.
O posicionamento, recursos, opções e políticas diferenciados destas várias repúblicas têm gerado reacções distintas na Rússia, visíveis na nem sempre coerente estratégia russa para a área, embora mantendo um mínimo denominador comum – a tentativa de persuadir estes governos a apoiar a Rússia como principal parceiro regional – um objectivo que não se tem revelado nem fácil nem linear.
Rússia e Ásia Central: um mosaico de interesses, influências e indefinições
Tal como demonstrado, o grau de envolvimento da Federação Russa na Ásia Central tem aumentado, e tem sido acompanhado por um esforço de clarificação de objectivos e estratégias, ainda em definição. Quanto a estas repúblicas, têm também definido as suas próprias abordagens para com a Rússia, com maior ou menor grau de flexibilidade. E as diferenças são notórias: de maior envolvimento no caso do Cazaquistão, de dependência no que concerne o Tajiquistão, de balanceamento no caso do Uzbequistão, de não afrontamento como o Quirguistão, e de envolvimento selectivo no que diz respeito ao Turquemenistão. Em termos genéricos, os esforços de integração regional não têm sido bem sucedidos, com dinâmicas bilaterais a sobreporem-se a formatos regionais multilaterais; e com os regimes personalizados autoritários nestas repúblicas a temerem que grandes mudanças possam por em risco o seu poder e domínio.
A Rússia entende que maiores esforços no sentido de uma cooperação regional reforçada poderiam ser benéficos para o desenvolvimento da área. Maior colaboração levaria, no entendimento russo, a maior estabilidade. Simultaneamente, Moscovo apoia estes processos multilaterais, percepcionando de forma muito clara que o seu não envolvimento lhe seria desfavorável. Nas palavras de Chernov, membro do Conselho de Segurança da Rússia, “se a Ásia Central se vai desenvolver como ‘coração’ da Eurásia ou se vai manter o seu centro geográfico depende dos resultados políticos e económicos dos países da região e da sua capacidade para cooperar de forma eficiente e mutuamente vantajosa em todas as esferas, incluindo segurança nacional e regional”.5 E, certamente, a Rússia não pretende manter-se marginal no processo. Numa mistura de políticas mais e menos assertivas, a Rússia não está disponível para ceder numa área que considera fundamental aos seus interesses. A Ásia Central está bem no centro da política externa russa, e diferentemente do início dos anos 1990, a Rússia não prescindirá da sua influência e poder na área.
Notas de rodapé:
1- Uma versão mais alargada deste texto foi apresentada na 50th Annual Convention, International Studies Association, que decorreu em Nova Iorque, entre 15 e 18 de Fevereiro de 2009. 2- Por exemplo, P. P. Vasko, Deputy Chairman of the Coordination Service of the Council of the Border Guard Commanders of the CIS Countries; M. D. Inferev, Counselor to the CSTO Secretariat; V. K. Novikov, First Deputy of Head of the Main Operational Departments, General Staff of Russia’s Armed Forces; V. I. Nemchin, First Deputy Head of the Administration of FSS of Russia. Ver edição especial sobre Rússia e Ásia Central da revista International Affairs: A Russian Journal of World Politics, Diplomacy and International Relations, número especial após Conferência Internacional que se realizou em Moscovo, a 23 de Outubro de 2003. 3- Kubicek, Paul (2004) “Russian Energy Policy in the Caspian Basin”, World Affairs, 166(4), 208. 4- Documentos de política externa da Federação Russa, 2000 e 2008. Ver The Foreign Policy Concept of the Russian Federation (2008), Official Web Portal of the President of Russia, 12 Julho, disponível em www.kremlin.ru/eng/text/docs/2008/07/204 5- Chernov, O. (2004) “At the Heart of New Eurasian Expanse”, International Affairs: A Russian Journal of World Politics, Diplomacy and International Relations, número especial após Conferência Internacional que se realizou em Moscovo, a 23 de Outubro de 2003, 152.
Maria Raquel Freire: Investigadora do Núcleo de Estudos para a Paz, Centro de Estudos Sociais. Professora de Relações Internacionais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal |