Revelam hoje documentos divulgados pelo Foreign Office
11.09.2009 - 16h24 PÚBLICO
Documentos até agora secretos e hoje divulgados pelo Governo britânico revelam que o Presidente francês François Mitterrand chegou a avisar a primeira-ministra Margaret Thatcher de que uma Alemanha unificada, depois da queda do muro de Berlim, em 1989, poderia “ganhar ainda mais terreno do que o conseguido por Hitler”.
Por seu turno, dois meses antes da queda do muro, Margaret Thatcher disse ao líder soviético Mikhail Gorbatchov que nem o Reino Unido nem a Europa Ocidental no seu conjunto queriam a reunificação, devendo o Kremlin fazer tudo o que pudesse para a impedir.
Estes documentos hoje publicados em Londres pelo Foreign Office, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, revelam a profunda ansiedade do Reino Unido e da França quanto à hipótese de uma Alemanha unificada recuperar o seu passado anterior à derrota na II Guerra Mundial.
Numa reunião que em 1989 teve em Moscovo com Gorbatchov, Thatcher afirmou-lhe que o fim do Pacto de Varsóvia não era no interesse do Ocidente, o qual nada deveria fazer que colocasse em risco a segurança da União Soviética.
Essas opiniões da primeira-ministra, em tudo contrárias ao que na época era dito em público pelos dirigentes ocidentais, estão contidas em cópias dos arquivos estatais soviéticos que passaram para a Fundação Gorbatchov e que depois o investigador Pavel Stroilov reproduziu e levou para Londres.
Quanto a Mitterrand, chegou a admitir uma aliança russa com o Reino Unido e a França, para combater o temido nacionalismo alemão, tal como já acontecera antes da I Grande Guerra.
Segundo se destaca num editorial do "Financial Times", foi nesse espírito de temor pela nova Alemanha que Mitterrand persuadiu o chanceler Helmut Kohl a sacrificar o marco a favor do euro, associando assim mais a Alemanha aos seus parceiros europeus, em vez de seguir um caminho exclusivamente seu.
Esta série de documentos agora conhecidos revela, inclusive, que o próprio Foreign Office entrou em choque com a primeira-ministra Thatcher, por temer em 1990 que a sua posição quanto à reunificação alemã estivesse a ser demasiadamente hostil em relação ao chanceler Kohl.
A chefe do Governo não teve em conta os conselhos do embaixador britânico em Bona, Sir Christopher Mallaby, que ela considerou que estava a ser demasiado brando, em relação ao temido perigo da reunificação alemã.
A decisão agora tomada pelo ministério dos Negócios Estrangeiros de trazer tudo isto a público, depois de um ano a estudar o assunto, foi encarada como uma tentativa britânica de demonstrar que, ao contrário daquela que é hoje a baronesa Thatcher, os seus diplomatas sempre viram com bons olhos uma Alemanha unificada.
A publicação de cerca de 500 páginas de documentos ao fim de 20 anos é algo fora do comum, uma vez que o Reino Unido espera normalmente três décadas para divulgar cartas e memorandos de natureza confidencial.